Nunca desperdice uma boa crise

Opinião de Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

André Manuel Mendes
Fevereiro 25, 2026
10:45

Opinião de Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

Em agosto de 1949, nos Estados Unidos, em Mann Gulch, dezasseis bombeiros combatiam um incêndio que se tornou fora de controle numa floresta. Treze pessoas morreram.



A diretriz clara de todos os treinos até aquele momento era “combater o fogo”. Para isso havia regras e procedimentos. O fogo era o inimigo e tinham de derrotar o inimigo! E se fosse preciso fugir? E se, naquele momento, não fosse possível vencer o inimigo? Para isso não existiam padrões ou procedimentos. Por consequência, também não tinham sido treinados a reconhecer a situação ou como lidar com ela. Infelizmente, as mortes aconteceram, mas, felizmente, aprendeu-se (e é pratica corrente, hoje em dia) que é preciso dar formação para quando as coisas não acontecem como previsto.

Winston Churchill dizia “nunca desperdice uma boa crise”. É, de facto, um momento, que se bem aproveitado, pode ser um momento excecional de aprendizagem, mas não se pode ficar apenas por aqui. A forma como respondemos a uma situação de crise numa empresa não é – nem pode ser – a mesma de como gerimos normalmente, no dia a dia. Nem sequer podem ser as mesmas pessoas. Há características humanas próprias que fazem com que a mais inesperada pessoa se torne motor e, às vezes, até herói duma crise.

A primeira coisa a fazer é avaliar bem a situação em todas as suas vertentes e perceber como isso irá ou não modificar o nosso futuro. É curioso este aspeto em que a urgência do momento nos deve levar a pensar no futuro. Devemos sempre gerir uma crise na busca do futuro que queremos e não apenas limitar-nos a pôr mãos-à-obra para resolver o presente. Depois, temos de saber ser flexíveis, adaptando e mudando aquilo que for preciso adaptar ou mudar. É aqui que percebemos da adaptabilidade ou nulidade das regras criadas e da necessidade de estabelecer novos modos de pensar e de agir. Em seguida, temos a regra que nunca pode ser esquecida: comunicar, comunicar e comunicar. Fazer sem explicar gera confusão e crítica. Há que saber ouvir e saber aprender, tendo consciência de que só com todos envolvidos no mesmo processo e conscientes do que é preciso fazer se pode chegar a uma solução. Por isso, mais do que nunca, é preciso a união de todos. Por último (e talvez por primeiro), agir rápido. Isto exige muito das pessoas e união entre elas, para que o fim que se deseja seja alcançado.

Isto tudo para dizer que numa crise, às vezes, não se acerta logo à primeira, até porque, normalmente, falamos de situações “nunca” vividas antes: pandemia, incêndios ou cheias. Todas as crises têm as suas particularidades e exigem uma resposta específica e adequada. Mas se avaliarmos a situação e pensarmos onde a crise nos leva, comunicarmos, garantirmos a união de todos e agirmos rápido conseguiremos, mais facilmente, chegar a uma solução para a mesma.

Infelizmente, aparecem muito, nestas alturas, os especialistas em fazer previsões no fim dos jogos e que têm soluções para tudo, apontando sempre os erros dos outros. É fácil isto, mas porque não falaram antes? Mesmo que tudo estivesse impecável e pronto para responder a uma crise (se é que isso fosse possível), a imponderabilidade iria ditar o falhanço da resposta inicial.

Nas palavras de Mario Draghi, “a boa governance não é só ser capaz de dar resposta adequada às crises atuais. É sermos capazes de agir depressa para antecipar as crises futuras”. Será que já aprendemos isto?

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